É tanta rede social, tanta realidade fabricada e receitas de felicidade à venda que às vezes pode ser difícil desvendar o próprio desejo. Mas será que entre tantos jeitos de ser e estar no mundo, seria possível haver uma única chave, guia ou fórmula de bem-estar? Ou será que cada pessoa precisa descobrir as suas formas de lidar com as dores e delícias da própria existência?
Somos muitos, com desejos e vivências absolutamente singulares. Instigados a atender cobranças externas e demandas internas, convocados a lidar com nossos desejos e contradições. Todos somos capazes de sentir e desejar coisas antagônicas. Uma pessoa pode desejar algo que não condiz com a imagem que construiu sobre si ou com as expectativas que imagina que os outros têm sobre ela. O que fazer diante desse conflito? “Fazer o que eu quero ou o que esperam de mim”? “Ser como eu gosto de ser ou como eu acho que deveria ser”? Muitas vezes a solução, feita de forma inconsciente, é recalcar, retirar aquele conflito de vista, fazer de conta que aquele desejo, fonte de tanto sofrimento, jamais existiu. Mas nenhuma solução é simples, pois fingir que um conflito não existe é insuficiente para fazê-lo desaparecer.
Fundador da psicanálise, Freud percebeu que o recalcado, quando não elaborado, pode retornar na forma de sintomas físicos e emocionais. Favorece inibições que paralisam o sujeito, tornando-o prisioneiro de um roteiro que ele muitas vezes não é capaz de enxergar como repetitivo, mas que sempre o coloca de volta a um mesmo lugar.
A solução de recalque que cada pessoa encontra deixa marcas, em muitos casos engessa a posição em que cada um se colocará em relação aos outros, seja no trabalho, nas amizades ou nos relacionamentos afetivos. Um efeito do recalque que retorna como sintoma é o estreitamento das possibilidades de fazer diferente, a dificuldade em explorar outros jeitos de ser e estar no mundo. Muitas vezes, o sujeito nem sabe o que está perdendo, resiste a abrir mão de algumas certezas porque foi essa descrição de si mesmo que lhe possibilitou chegar até aqui. A mesma descrição que é fonte de sofrimento, também lhe trouxe ganhos. É a única versão de si próprio conhecida e, por isso mesmo, muito difícil de abandonar.
Ao convidar o sujeito a falar o que lhe vêm à cabeça, sem censura, a psicanálise abre caminhos para que o analisando se reencontre com sua história, nomeie suas dores, elabore os conflitos que lhe paralisam e descubra novas posições em sua narrativa particular. É impossível mudar o que já aconteceu ao longo de uma vida, mas sempre é tempo de transformar a posição que cada um de nós assume diante do que passou e do que ainda virá.
Existem incontáveis formas de ser e estar no mundo. A psicanálise possibilita que cada pessoa desvende o seu jeito, absolutamente singular.
